quarta-feira, 26 de maio de 2021

Haganai Volume 3 - Prólogo







Prólogo: Despedida

Meu pai me disse que iríamos nos mudar para uma cidade distante em duas semanas, isso na época em que eu ainda era só um aluno da primeira série.

Aquela foi a primeira vez que eu me mudei e, desde então, me mudei mais vezes do que eu poderia contar.

Meu pai era um arqueólogo e, como tal, geralmente tinha que correr ao redor do país para fazer seu trabalho, por isso nossa casa ficava frequentemente mais vazia do que habitada.

Logo depois da Kobato nascer, nossa mãe morreu. Foi aí que nosso pai abandonou seu trabalho e passou a se dedicar a cuidar da Kobato e de mim.

Eu posso ser tendencioso, já que sou filho dele e tudo, mas acho que ele se preocupa com sua família.

Quero dizer, quando a mamãe estava grávida de mim, ele esteve bem ciente de que frequentemente não estava por perto e trabalhou feito um burro de carga para poder comprar “uma boa casa, na qual minha adorável esposa poderia criar nossos filhos em uma cidade confortável”.

Ele parece muito desleixado e tem uma personalidade duvidosa, mas é um habilidoso e bem conhecido estudioso, a ponto de que frequentemente haviam pessoas que vinham a nossa casa para encontrá-lo.

Na verdade, eu realmente gostava de ver o papai falando sobre várias coisas complicadas com estrangeiros e com pessoas muito mais velhas que ele que vinham vê-lo.

Eu costumava também ter alguns pensamentos infantis sobre ele. Coisas como “ficar em casa o tempo todo deve ser duro e não combina com ele”.

Suponho que seja por isso que toda vez que ele dizia que estávamos nos mudando, eu sempre pensava apenas “Então, já estamos nesse momento outra vez, hum?” e mais nada.

– Você vai ter que mudar de escola outra vez. Desculpe, Kodaka.

É o que ele me disse com um olhar apologético no rosto.

Estou certo de que um simples “Um-hum” ou um “Oh?” seriam a extensão da minha reação ao ouvir aquilo.

Não é como se eu estivesse me segurando por causa do meu pai, eu simplesmente não me importava se teria que mudar de escola ou não.

Não é como se eu tivesse amigos lá, de todo modo.

...Mas

Embora eu não pudesse me importar menos sobre a mudança de escola, ter que deixar meu amigo era doloroso.

Naquela época, eu tinha apenas uma pessoa que eu poderia chamar de amigo.

Eu poderia até mesmo dizer que ele era meu melhor amigo.

Ele me ajudou quando o restante da classe estava pegando no meu pé e, embora tenhamos tido uma pequena briga logo depois disso, nós nos tornamos amigos.

Foi algo do tipo, “Você não é tão ruim.” e “O mesmo vale para você.”.

Todos os dias, assim que a aula acabava, eu corria para fora da escola e saía com um garoto que ia para uma escola diferente.

Nós conversávamos, jogávamos, fingíamos ser super-heróis, fingíamos sair em explorações, comíamos doces, atirávamos coisas e um dia lutamos contra dois dos meus agressores do outro dia, que haviam voltado em busca de vingança.

Passar o tempo com ele valia muito mais para mim do que algo como ter 100 amigos na escola.

Tenho certeza de que ele se sentia da mesma maneira.

E era exatamente por isso que eu não podia dizer aquilo.

Um dia se passou, depois três, depois uma semana, mas eu ainda não conseguia dizer a ele que iria deixar a cidade.

Eu fiquei assim, incapaz de dizer a ele qualquer coisa sobre eu estar deixando a cidade.

Entretanto, acho que foi cerca de dois dias antes de eu ter que ir embora, eu disse a ele: “Eu tenho algo importante para te dizer amanhã, então é melhor você estar aqui.”.

Ele balançou a cabeça e, embora eu não saiba porquê, ele ficou com um rosto sério e me disse “Nesse caso, eu também tenho algo importante para te dizer amanhã, Taka.”.

Cada um de nós prometeu contar ao outro “algo importante” e fomos para casa no fim do dia.

No dia seguinte.

Eu abri a porta para minha sala de aula e havia uma “Festa de Despedida do Hasegawa”, para a qual ninguém podia se importar menos. Ela acabou rapidamente e eu corri para fora da escola como de costume, indo em direção ao lugar em que nos encontraríamos no parque.

Eu nunca o vi. Esperei uma hora, duas horas, mas ele nunca apareceu. Eu esperei até que o sol desaparecesse no horizonte, mas, mesmo assim, ele nunca apareceu.

... E então, eu deixei a cidade sem dizer uma única palavra ao meu primeiro e único melhor amigo.

Mesmo agora, 10 anos depois, essa ainda é uma memória dolorosa para mim.

O dia em que eu me lembrei dessa despedida foi o primeiro dia de Setembro, no meu Segundo Ano do Ensino Médio.

O dia após o fim das férias de Verão.